As não conformidades mais comuns em auditorias de construtoras

Engenheiro confere o prumo de uma parede de alvenaria com nível e ficha de verificação

Quem audita construtoras com frequência percebe que algumas não conformidades aparecem em empresas muito diferentes, de portes e regiões distintos. Elas raramente indicam má-fé. Quase sempre mostram um sistema que foi desenhado no escritório e não chegou de verdade ao canteiro.

A lista abaixo reúne situações recorrentes na prática de auditorias em sistemas ISO 9001 e SiAC PBQP-H, com a causa mais comum e o que fazer para evitá-las.

1. Fichas de verificação preenchidas sem inspeção

A ficha está completa, assinada e com todos os itens aprovados, mas o serviço tem defeitos visíveis, ou a ficha foi preenchida dias depois, de uma vez só. A causa costuma ser a ficha vista como papel a entregar, e não como ferramenta de controle.

Como evitar: fichas simples, com poucos itens que realmente importam, preenchidas no momento da inspeção, e treinamento de quem inspeciona sobre os critérios de aceitação.

2. Recebimento de materiais incompleto

O material chega, é descarregado e usado, mas não há registro de que foi conferido contra o pedido e a especificação. Em alguns casos, o almoxarife não conhece os critérios de inspeção do material.

Como evitar: critérios de recebimento claros para cada material controlado, ao alcance de quem recebe, e um registro rápido de aceite ou recusa.

3. Controle tecnológico sem rastreabilidade

Os laudos de ensaio do concreto existem, mas não é possível saber em quais peças foi aplicado cada caminhão. Se um resultado vier abaixo do especificado, a construtora não sabe onde agir.

Como evitar: mapa de concretagem que relacione nota fiscal, lote e peça, e análise dos laudos assim que chegam, e não só o arquivamento.

4. Projetos desatualizados na obra

A equipe executa com base em uma revisão de projeto que já foi substituída. É uma falha de controle de documentos com impacto direto em retrabalho.

Como evitar: lista mestra de projetos com a revisão vigente, recolhimento das cópias obsoletas e conferência periódica no canteiro.

5. Equipamentos de medição sem verificação

Trenas, níveis, esquadros e prumos são usados para aprovar serviços, mas não há evidência de que foram verificados ou calibrados. Se o instrumento está errado, a inspeção perde valor (requisito de recursos de monitoramento e medição, 7.1.5 na ISO 9001).

Como evitar: identificação dos instrumentos, rotina de verificação com padrão de referência e registro simples.

6. Treinamentos sem registro ou sem avaliação

A equipe foi orientada, mas não há registro, ou há lista de presença e nenhuma avaliação de que o treinamento funcionou. Empreiteiros que entraram depois do início da obra costumam ficar de fora.

Como evitar: integração obrigatória para todo novo executor do serviço controlado e avaliação prática no posto de trabalho, observando a execução.

7. Plano da Qualidade da Obra genérico

O PQO foi copiado de outra obra e cita serviços que não existem, responsáveis que não estão mais na empresa ou destinações de resíduos de outro município.

Como evitar: elaborar o PQO com a equipe da obra, no início, e revisá-lo quando houver mudanças relevantes. O guia prático de PBQP-H e SiAC explica o que ele deve conter.

8. Ações corretivas que tratam o sintoma

A não conformidade foi corrigida, mas a causa não foi investigada. A ação registrada é “reorientar o colaborador”, e o mesmo problema aparece na auditoria seguinte, em outra obra.

Como evitar: análise de causa com método, ações que mudam o processo e verificação de eficácia com prazo definido. Veja mais em Auditoria interna: como se preparar e aproveitar os resultados.

9. Análise crítica sem dados

A ata da análise crítica pela direção lista as entradas exigidas, mas sem números, tendências ou decisões. O documento existe para a auditoria, e não para a gestão.

Como evitar: levar à reunião indicadores com histórico, resultados de auditorias e reclamações, e registrar decisões com responsável e prazo. O artigo Indicadores de desempenho traz exemplos.

10. Requisitos de desempenho esquecidos

Em obras habitacionais, os projetos não mostram como foram considerados os requisitos da ABNT NBR 15575, ou o manual de uso, operação e manutenção entregue ao cliente não corresponde ao que foi construído.

Como evitar: incluir o desempenho na análise crítica dos projetos e preparar o manual com base nos materiais e sistemas efetivamente utilizados, seguindo a ABNT NBR 14037.

O que essas não conformidades têm em comum

Quase todas nascem da distância entre o sistema documentado e a rotina da obra. Procedimentos longos demais, fichas com itens que ninguém entende e treinamentos feitos só no escritório criam essa distância. A solução passa por:

  • documentos curtos, escritos com a linguagem de quem executa;
  • presença da gestão da qualidade no canteiro, e não só no escritório;
  • auditorias internas que vão à obra e observam a execução;
  • direção que usa os dados do sistema para decidir.

Como usar esta lista na sua construtora

Esta lista funciona bem como roteiro de uma autoavaliação rápida. Escolha uma obra em andamento e, para cada item, procure a evidência no próprio canteiro: abra uma ficha de verificação e confira o serviço correspondente, pegue uma nota fiscal de material e veja como foi feito o recebimento, escolha uma peça concretada e tente chegar ao laudo do ensaio. Converse com quem executa, e não apenas com o engenheiro responsável.

Se a evidência não aparecer em poucos minutos, há uma oportunidade de melhoria. Registre o que encontrou, discuta com a equipe da obra e trate a causa, e não só o sintoma. Repetir o exercício em obras diferentes mostra se o problema é pontual ou do sistema.

Perguntas frequentes

Uma não conformidade impede a certificação?

Depende da gravidade e da forma como é tratada. Organismos certificadores costumam diferenciar não conformidades maiores, que indicam falha sistêmica, das menores, que são pontuais. Em geral, a empresa apresenta um plano de ação, e as maiores exigem evidência de tratamento antes da decisão.

Como saber se minha construtora está pronta para a auditoria?

Uma auditoria interna independente, feita com o mesmo rigor da auditoria externa, é a melhor forma de descobrir. Ela mostra o que precisa ser ajustado enquanto ainda há tempo.

Quer saber como a sua construtora se sairia em uma auditoria? A ISBoss faz inspeções de obras e auditorias internas com olhar de auditor líder. Fale com a gente.

Compartilhe este artigo

Foto de Ignacio Serafini

Ignacio Serafini

Engenheiro civil desde 2002 e atuante na construção civil desde 1985, com mais de 24 anos em gestão de obras como gerente, executor, consultor e auditor líder. Fundador da ISBoss Consultoria Empresarial.

Conheça a trajetória

Leia também

A ISO 9001:2026 foi publicada em 16 de setembro de 2026. Veja as principais mudanças, o que continua igual e o prazo
Como escolher, definir e usar indicadores de desempenho para medir a eficácia do sistema de gestão, com exemplos para construtoras e os
O que as normas ISO pedem sobre riscos e oportunidades e um método prático em seis passos, com exemplos da construção civil

Sua empresa precisa implantar, manter ou certificar um sistema de gestão?

Converse com a ISBoss e receba uma proposta adequada à realidade da sua empresa.